Mariana tem um brilho muito especial no olhar. Uma força só dela que não combina muito com o seu corpo miúdo e frágil, mas se encaixa perfeitamente com os seus planos para o futuro. Ao mesmo tempo em que quer ser uma "grande engenheira elétrica", tem coragem suficiente para assumir que não consegue tomar os remédios contra a aids direito: "O gosto é horrível e tenho dificuldade de engolir". Por causa disso, Mariana fica muito doente com freqüência. Quando ela conversou com a Saber Viver Jovem, estava com pneumonia, mas fez questão de contar um pouquinho de sua história. Mariana é assim, guerreira. Torcemos para que ela mude a sua relação com os remédios anti-aids. Afinal, com tantos planos pela frente, é fundamental estar forte. Um beijão, Mariana, de toda a equipe da Saber Viver Jovem.
Você se acha diferente das outras meninas adolescentes?
Eu me acho sim, porque o meu corpo é muito pequeno. Tem outras meninas que são pequenas, mas, por eu ser doente, fica aquele constrangimento. Eu penso que está todo mundo olhando para mim na rua.
Qual é a maior dificuldade que você tem para conviver com o vírus da aids?
Tomar remédio. Gente, eu não consigo tomar aqueles remédios! Parece que tem uma força negativa falando “não toma não, pra quê?”. O gosto é horrível! Às vezes, eu tenho dificuldade de engolir porque eles são muito grandões.
Você fala sempre para o seu médico quando não toma os medicamentos?
Eu não falo sempre, não.
Você gosta de namorar?
Eu gosto de paquerar. Quando estou a fim de alguém, eu corro atrás. Se ele não tiver a fim de mim, pelo menos eu fico logo sabendo e não me iludo. Eu já tive um namorado firme. Durou uns dois meses. Eu sou muito pontual e gosto de tudo muito certinho. Não gosto de quem faz hora com a minha cara. Marca e não vai. Eu fico uma fera!
Você acha que o HIV atrapalha os seus namoros?
Não. Eu não vou querer passar o que eu tenho para outra pessoa. Quando eu tiver uma relação sexual, eu vou querer me proteger e proteger o meu parceiro. Se eu tiver um problema na boca, eu não vou querer beijar ninguém. Eu sou cuidadosa com o outro.
E na escola, você já foi discriminada por causa do HIV?
Já. Foi na 3ª série. Minha tia achou que poderia contar para minha professora. Mas ela me discriminou na aula. Falou que eu tinha que sentar no fundo da sala porque eu não poderia respirar o mesmo ar que os outros alunos. Minha tia teve que ir à escola. Saiu nos jornais e na revista esta discriminação que eu sofri.
Você ficou com raiva?
Essa reação da professora me deixou muito triste. Arrasada! Eu gostava de sentar na primeira carteira. Eu era muito pequena, não enxergava direito e tinha que ficar em pé no fundo da sala de aula.
Você sabia que tinha o HIV na época?
Eu não sabia, mas desconfiava. Cresci junto com os meus primos, mas só eu tinha que tomar remédios. Depois desse problema na escola, a psicóloga me procurou para contar.
Quais são os seus planos para o futuro?
Quero ser uma grande engenheira elétrica. Não quero casar, porque homem dá muito trabalho. É melhor ficar só nas paqueras. Quero fazer muitas viagens, porque eu gosto de sair. Pretendo adotar uma criança. Não quero ter filhos. Sei que eu poderia tentar, que as chances da criança ser soropositiva são pequenas, mas prefiro adotar.
Você tem muitos amigos?
Tenho muitos amigos com HIV e sem HIV. Ter amigos é muito importante.
O que você gostaria de dizer para os outros adolescentes que vivem com HIV igual a você?
Nós não somos diferentes dos ou-tros. A gente pode fazer tudo que os outros fazem, só devemos ter alguns cuidados porque a nossa saúde é mais sensível. Se alguém colocar uma pedra em seu caminho, não a chute. Abaixe e a apanhe, porque assim você não corre o risco de encontrá-la na frente novamente.
FONTE: REVISTA SABER VIVER -









